Sense8 – Nossa série, ninguém cancela!

Eu pretendia deixar esse texto mais pra frente, mas vou aproveitar a notícia que nos deu a data do episódio final de Sense8 e falar dessa série amada e que custa caro – tão caro que foi cancelada (e depois descancelada, mas falaremos disso mais adiante). Bom, pelo menos essa foi a desculpa oficial – o dinheiro.

Aviso de postagem loooonga.

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Falta pouco ❤

Se você estava na internet ano passado, você sabe, ao menos, que a série existe; ainda assim, vamos ao que se trata: Sense8 narra a história de oito estranhos, os chamados “sensates” (daí o trocadilho do título, por causa do som da palavra em inglês), em 8 cidades e/ou países diferentes, que, de repente, começam a dividir sensações, visões, acontecimentos: veem coisas que não estão ali, conversam com pessoas que não estão ali. É complexo de explicar, mas o resumo mais simplista é que as as mentes de todos eles estão conectadas. E isso acontece após uma mulher misteriosa (Angelica Turing, vivida por Daryl Hannah) “dá a luz”, ou seja, ativa a conexão das pessoas dentro desse grupo, que será chamado de “cluster” dali em diante.

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Angelica e Jonas Maliki (Naveen Andrews), nosso dicionário do mundo sensate, logo antes do nascimento do cluster

Sim, a série é uma grande viagem. E uma das mais legais que uma série pode te proporcionar. O próprio telespectador demora um pouco pra entender tudo que está acontecendo – e eu realmente acho que essa série precisa que as pessoas sigam aquela regra dos 4 episódios: tem que assistir até o final do 4º epi pra decidir se gosta ou não. Antes disso, é tudo meio confuso; só daí em diante é que tudo vai fazer sentido de verdade.

Sense8 é uma original Netflix, composta por 2 temporadas completas e um episódio especial de 2 horas entre as temporadas. Ela chegou a ser cancelada após a segunda temporada, o que deixou a internet em polvorosa e os fãs enraivecidos – incluindo essa que vos escreve. Não estou brincando, não, eu fiquei puta da vida. Não foi a minha primeira série cancelada, e nem vai ser a última – aliás, só ano passado, e só da Netflix, foram 3 séries canceladas sem dó (as outras duas eram Marco Polo e The Get Down) – mas essa foi demais… cancelar Sense8 com o final totalmente aberto da segunda temporada era um desrespeito sem tamanho com os fãs.

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Imagens reais da internet nesse dia

Voltando – depois que você consegue se encontrar dentro do enredo, assistir a série se torna uma experiência única. Não, não é exagero: nenhuma série fala tanto e com tanta propriedade de sexualidade, relacionamentos, mundo LGBT, companheirismo, tudo com pitadas de perseguição e ação, e de uma forma emotiva, gostosa, tensa e engraçada.

Essa foi a segunda grande série a colocar uma atriz trans no papel de uma pessoa trans: a belíssima Jamie Clayton, que vive a Nomi Marks, mulher trans e lésbica que tem um relacionamento lindo com a Amanita (Freema Agyeman). Antes dela, tivemos apenas a incrível Laverne Cox, a Sophia Burset de Orange Is The New Black, também da Netflix. E não dá pra negar a importância de se colocar pessoas trans para viver pessoas trans, inclusive porque isso dá visibilidade a incríveis atores e atrizes que seguem marginalizados até hoje.

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Nomi dizendo a verdade: “(a violência real, a violência indesculpável) é a que cometemos contra nós mesmos, quando estamos com muito medo de sermos quem somos”

Sense8 nos trouxe um mundo novo, uma história com o frescor, humor e, ao mesmo tempo, peso dramático das vidas totalmente diferentes daquelas 8 pessoas. Cada sensate tem uma habilidade diferente: temos a já citada hacker Nomi; o policial Will Gorski (Brian J. Smith); a dj Riley Blue (Tuppence Middleton); a farmacêutica Kala Dandekar (Tina Desai); o ladrão de cofres Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt); a executiva, lutadora de artes marciais e dona da porra toda Sun Bak (Bae Doona); o ator Lito Rodriguez (Miguel Ángel Silvestre, aka mozão); e o motorista de van Capheus Onyango (que foi vivido, na primeira temporada, por Aml Ameen e, na segunda, por Toby Onwumere).

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Aml Ameen, à esquerda, foi substituído após uma briga com a diretora, Lana Wachowski, por Toby Onwumere

Nós acompanhamos a confusão que todo esse despertar provoca: tanto nós quanto o cluster ficamos tentando entender o que está acontecendo. A série tem drama, romance (inclusive entre pessoas que nunca se viram em carne e osso), sexo, luta contra preconceitos, discursos de aceitação, ação, perseguições, fugas, resgates e muitos momentos de alívio cômico, em geral com o Lito e o núcleo mexicano, que é de longe o meu preferido. Não é uma série perfeita – em alguns momentos, as falas parecem querer apenas dar lição de moral na audiência, e algumas pessoas podem se irritar com isso. Mas, mesmo nesses momentos, eu fico bem tocada, porque é tudo muito real, todas as lições são reais.

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Lito, Daniela Velazquez (Eréndira Ibarra) e Hernando Fuentes (Alfonso Herrera), o núcleo mexicano. Não vou explicar, assistam =P

As cenas coletivas são a melhor característica da série. É sempre muito gostoso ver os 8 trabalhando juntos, cada um com o que sabe fazer, cada habilidade servindo a um propósito. Ou até mesmo quando eles estão juntos em momentos de diversão, como o karaokê e o famoso surubão, ou apenas para serem apoio uns dos outros – os 8 juntos são a melhor parte da série e o motivo que a faz funcionar tão bem.

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Will: “Merda! Quatro guardas!”
Sun: “É só isso?”

A série se passa em diversos países, porque os próprios sensates são de lugares diferentes: Índia, EUA, Alemanha, Islândia, Nigéria, México e Coréia do Sul. E, assim, chegamos ao maior problema da série: os custos. Gravar em todos esses países e em outros mais (eles passaram pela Itália, França e pelo Brasil, por exemplo) é MUITO CARO. O perfeccionismo das Wachowski aqui é levado ao extremo – para que as cenas fiquem perfeitas, elas são repetidas muitas vezes, em países diferentes. Agora, imagine você ter que pagar a conta das viagens de 8 atores, mais os vilões e outros personagens regulares, mais a equipe, mais o transporte dos equipamentos, mais locação nos países, mais salários… a conta é muito alta, eu estou plenamente de acordo que essa série é quase impossível de se pagar.

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Foto tirada por euzinha mesma na Parada LGBT – tava o elenco todo em cima desse carro

Mas aí chegamos nas minhas discordâncias. Vamos lá:

Não é como se a Netflix não soubesse desde sempre que Sense8 seria cara. Bastava ler o roteiro para saber. Bastava conversar com as diretoras. Era uma série que, desde o início, se propunha a gravar em vários países. Isso jamais seria barato. Não entendi qual foi a surpresa com a conta alta depois da segunda temporada. Como disse o Bruno Carvalho, do Ligados em Série, não faz sentido.

“Ah, mas não foi só isso, a série não se pagou” – então, a série só se pagaria se a Netflix explodisse em assinaturas. Mas explodisse mesmo, tipo duplicasse ou triplicasse as assinaturas em todos os países. E como isso iria acontecer com uma série que fala tão abertamente sobre sexualidade e amor LGBT? Vocês já deram um passeio fora da bolha? Vocês acham que meus pais assistiriam essa série? De jeito nenhum! Por mais que eles sejam pessoas mais abertas hoje, jamais acompanhariam uma trama como essa.

A minha (talvez nossa?) bolha, da galera LGBT e aliados, amou a série e a tomou para si – o que causou, em parte, a revolta com o cancelamento.

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Balada com o cluster todo ❤

Sense8 já nasceu série de nicho. Com algum alcance maior, talvez, mas de nicho, sim. A classificação dela é “ficção científica dramática” (eu juro), o que a leva ainda mais para um nicho específico. Então, como eles esperavam que todo mundo abraçasse a trama? Não vai rolar, olhem ao redor, nós estamos passando por um levante conservador severo no mundo inteiro, gente.

E se o problema é dinheiro, então por que fazer um especial de natal e ano novo? Por que gastar todo esse dinheiro num episódio que, vamos ser sinceros, mal fez a história andar? Ou, ainda, por que não diminuir os custos, usar recursos e efeitos mais em conta? Não precisa levar todos os atores para todos os cantos do mundo. Adaptações são possíveis, não?

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*Assopra a velinha*

Eu ainda acho que não foi esse o motivo real. Mas o que sabemos é que a série foi descancelada, por causa da reação dos fãs (sobretudo os brasileiros), e a Netflix teve engolir em seco e pagar um episódio de 2 horas, para dar um final à história. Graças a Ganesha. E graças a todos nós que xingamos nas internets.

Eu tenho quase certeza que o final não vai ser satisfatório, porque são muitas situações a serem resolvidas e pouco tempo. Mas tudo bem – melhor isso do que nada. Nossa Sense8 ainda está viva e volta pra nós dia 08/06. Aguardamos ansiosamente ❤

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Estamos prontos.

 

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