Cara Gente Branca e o que o Brasil tem a ver com isso

Hoje eu pretendia fazer uma postagem completamente diferente. Mas não vai dar. Porque tem um só assunto na minha cabeça – a morte da vereadora Marielle Franco, do RJ. E, eu sei, esse é um blog sobre séries, não é sobre política. Mas não dá pra separar as histórias que a gente assiste da realidade. E, às vezes, os assuntos se encontram e se misturam. É o caso dessa série que eu vi ano passado, em dois dias de feriado, e que me deu vários socos no estômago. E hoje a realidade nos deu mais socos. Mesmo correndo o risco de parecer oportunista, não podia deixar de falar alguma coisa. Por isso, minha postagem é sobre essa série e o que o Brasil tem a aprender com a discussão de racismo e genocídio/limpeza étnica. Porque a luta da Marielle tem a ver com essa discussão. E esse é meu jeito de tentar honrá-la.

Sim, postagem bem longa. E peço licença aos meus amigos e amigas negros e negras pra falar.

Cara Gente Branca foi uma série extremamente polêmica nos EUA. Por causa dela, surgiram campanhas de cancelamento da Netflix e o trailer recebeu uma enxurrada de “deslikes” no Youtube. Tudo isso porque trata de um dos mais espinhosos temas atuais, que é o racismo diário. Eu, mulher não negra, já iniciada nos assuntos de minorias (sou feminista e de esquerda, caso você não saiba), fui assistir pra ver qual era a polêmica. E a série não decepcionou, sobretudo no episódio 5 (vou falar dele mais abaixo, com spoilers leves).

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Sam ( Samantha, à direita) falando de racismo reverso, uma das mais bizarras lendas da atualidade

Vale dizer que a série é baseada em um filme de mesmo nome, lançado em 2014 e que também está no catálogo da Netflix.

A série, que é uma comédia com partes bem dramáticas, trata de um grupo de estudantes negros que frequenta uma universidade de elite, com a maioria de alunos brancos. Dentro dessa universidade, eles todos se conhecem; e a série nos mostra a diversidade de ações e pensamentos entre eles – o que já é um ponto positivo, por colocar essas personagens como indivíduos diversos entre si, com falhas, com níveis. O retrato deles não é maniqueísta, não fica apenas no “bom” e no “mau”, há muitas nuances.

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Blackface. Sem comentários.

No piloto, já vemos uma festa chamada “Cara Gente Preta”, na qual os alunos brancos resolvem se “fantasiar” de negros, com direito a blackface (maquiagem para imitar a cor da pele dos negros). Para quem não sabe, blackface é considerado desrespeito pelos negros, por conta da origem dessa caracterização – ela era usada em peças de teatro numa época em que negros não podiam atuar, por serem negros, e as personagens com essa caracterização eram sempre pessoas folgadas, que não gostam de trabalhar e etc. Mais informações sobre isso aqui.

Cara Gente Branca é o nome de um programa de rádio da universidade, comandado pela Samantha White (Logan Browning), personagem retratada no primeiro episódio. Aliás, cada um dos 10 episódios tem uma das personagens em destaque, e assim nós aprendemos a história de todos eles. Uma ótima ideia, bem realizada, e que ajuda a ressaltar as diferenças e nuances de cada pessoa. E o assunto não é apenas racismo – falam de homossexualidade, de amor interracial, da solidão da mulher negra (principalmente na figura da Coco Conners, vivida pela Antoinette Robertson, uma das melhores personagens), dos sacrifícios pela beleza, de colorismo, de uma lista imensa de preconceitos e problemas da atualidade.

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“Beleza é dor” – Coco passando pelo que muitas mulheres com cabelos crespos passam

A série é irônica, engraçada, tensa e te dá vários tapas na cara, porque, mesmo sendo sobre a sociedade americana, dá pra traçar vários paralelos com a nossa vida aqui no Brasil. A gente sabe que pessoas negras são mais paradas pela polícia e são maioria entre as que vivem e que são mortas dentro de favelas. A gente lembra da Cláudia sendo arrastada pelo carro da PM do RJ; a gente lembra do desaparecimento do Amarildo. A gente pode fingir que não, acreditar que é exagero dizer isso, mas está acontecendo um genocídio da população negra e pobre. E é aí que entra a execução da Marielle Franco, que lutou tanto para denunciar abusos de autoridades dentro das favelas – ela mesma, como se definiu a vida toda, “cria da Maré”.

Nos EUA, se acontecesse algo parecido com o assassinato da vereadora, o país estaria em chamas. Na verdade, nem precisa ir longe: por casos de violência, de tortura, de assassinatos como esse, os nossos vizinhos argentinos e chilenos foram pras ruas, movimentaram seus países e mudaram leis. Aqui, hoje, se você entrar na página da Marielle no Facebook, verá inúmeros comentários comemorando a morte dela, pois é “menos uma comunista feminista no mundo”. Pelo menos, temos vários protestos marcados por todo o Brasil para hoje. Mas eu me pergunto se amanhã isso vai mudar algo.

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O elenco maravilhoso – e só por essa foto já dá pra ver a diversidade

Se uma vereadora, no caso, a quinta vereadora mais votada no RJ, é assassinada assim, no meio da rua, aos olhos de todos, o que não deve estar acontecendo nas favelas? O que não deve estar acontecendo com as pessoa “normais”? Com os negros e pobres que não têm voz?

Não posso ser leviana aqui e culpar alguém, mas devo dizer que os indícios apontam para execução, e que, coincidentemente, na última semana, Marielle fez várias denúncias contra policiais do 41º BPM do RJ, que é o batalhão que mais mata na cidade.

Voltando à série.

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Queria achar uma imagem maior dessa cena, mas fica o recado da Sam

Agora, SPOILERS bem leves sobre um episódio específico.

No 5º episódio, acompanhamos a narrativa de Reggie Green (Marque Richardson). Ele está numa festa, com amigos brancos. Toca uma música com a palavra “nigga”, considerada extremamente ofensiva, sobretudo quando dita por um branco. Reggie pede pro amigo não falar aquela palavra, mesmo no contexto da música, e inicia-se uma discussão ridícula, porque o amigo, branco, se sente pessoalmente insultado. E a discussão escala pra uma das cenas mais tensas da série, que eu não vou contar qual é. Assista.

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“Exatamente. Essa é a diferença. O fato que você não liga, mas eu ligo (falando sobra a palavra começada com ‘n’)”

Se você quiser ver os atores falando sobre essa cena, clique aqui.

Vou me dar ao direito de mudar um pouco o nome da série para dar um recado: cara gente não negra – o racismo não é sobre você, ou sobre mim. O racismo é sobre a sociedade e as coisas que nós fazemos/dizemos sem pensar, por estarem tão normalizadas que nós nem estranhamos. O racismo é sobre perceber nossos erros, mesmo que nós não sejamos de fato aquelas pessoas horríveis que xingam alguém de macaco ou coisa que o valha. Mesmo sendo pessoas boas, nós podemos cometer atos racistas SIM.

E essa discussão é também sobre empatia e respeito. Se uma pessoa negra te fala para, por favor, não fazer/dizer algo, é simples – não faça/diga. Claro, você possivelmente vai se sentir ofendido, vai se sentir mal com isso, vai querer se defender e dizer que não é racista. Mas pare. Apenas ouça, se coloque no lugar do outro e respeite. Se tiver dúvidas, pergunte, porém, esteja disposto a ouvir de verdade, não a ouvir pra retrucar. Você não sabe como é ser negro. Eu também não sei. E por isso a discussão é importante. Por isso ouvir é importante.

Eu recomendo ver essa série de coração e cabeça abertos. Ela é necessária e ajuda a entender dias trágicos como os nossos atuais.

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“Acorde”
Tomara que a gente consiga acordar

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