Mindhunter – a invenção dos serial killers

Pense numa época em que o FBI não fazia a menor ideia de porque assassinatos em séries aconteciam, como capturar os assassinos e como seria possível evitá-los. Não havia informações sobre esses criminosos e ninguém buscava entender a mente por trás dos crimes – a única decisão tomada era de mantê-los dentro de prisões extremamente bem vigiadas, quando a polícia tinha a sorte de conseguir prendê-los. Essa é uma época anterior à própria invenção do termo serial killer. E é justamente nessa época que se passa a ótima e tensa Mindhunter, série da Netflix e do David Fincher (Seven), que já está renovada para a segunda temporada.

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Há método na loucura?

Na série, nós acompanhamos a criação de um departamento dentro do FBI, pelas mãos do negociador de reféns Holden Ford (Jonathan Groff), do agente da Unidade de Ciência Comportamental Bill Tench (Holt McCallany), ambos do próprio FBI, e da psicóloga comportamental Wendy Carr (Anna Torv), uma consultora de fora do Bureau. Nós vemos o instigante começo de tudo – as primeiras entrevistas com serial killers, o aprendizado sobre padrões de comportamento, os problemas familiares comuns a esse tipo de criminoso; descobrimos os hábitos que podem ser vistos como sinais de alerta desde a juventude (incêndios, tortura e morte de animais etc.); e vemos também as dúvidas e diferenças entre os três criadores desse experimento, os métodos que vão sendo cunhados aos poucos e as maneiras por vezes nada ortodoxas de lidar com essas pessoas extremamente perigosas e que não demonstram remorso nenhum.

E, claro, talvez nem precise dizer, mas é tudo baseado em fatos reais. A série retrata a história contada no livro “Mindhunter: O primeiro caçador de serial killers americano”, escrito pelos agentes John Douglas (Holden) e Mark Olshaker, relatando também a participação de Ann Wolbert Burgess (Wendy) e Robert K. Ressler (Bill). Pelo que pesquisei (não li o livro, então não tenho certeza), a série conta boa parte do que acontece no livro já nessa primeira temporada, mas a história dessa experimentação, que hoje ajuda a identificar esses assassinos, ainda tem muito o que mostrar.

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Holden (à esquerda), Wendy e Bill em cena

A série é densa, muito densa. E muito interessante. Pra quem gosta do assunto (que é o meu caso), é um prato cheio. Boas atuações, bom roteiro, até mesmo a escolha dos atores que interpretam os serial killers é cuidadosa – o ator que faz o primeiro assassino entrevistado, Ed Kemper (Cameron Britton), é tão parecido com a pessoa real que chega a assustar. A ambientação é na medida e as histórias contadas são terríveis, pra dizer o mínimo. Você se divide entre horrorizado e interessado. Acompanhamos as entrevistas com os assassinos e um pouco das vidas pessoais das três personagens principais – e fica muito claro como a convivência com esses criminosos e toda a experiência começa a afetar os três num nível mais pessoal. O que era de se esperar, já que não dá para ouvir tudo que é dito pelos presos e sair intacto, ileso. Mesmo nós, meros espectadores, não saímos totalmente ilesos, por saber que aquilo tudo é, sim, verdade.

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O ator que o interpretou, à esquerda, e o verdadeiro Ed Kemper – assustadora a semelhança

Em paralelo às entrevistas, acompanhamos também um homem misterioso, do mundo fora das grades, no que se torna um crescente de suspense e para o qual não temos uma resposta definitiva ainda. Fiquei muito curiosa para saber como eles vão lidar com esse homem na próxima temporada. Claro que fui procurar quem era esse cara, mas não vou contar aqui, hehe.

Séries com serial killers são quase sempre ótimas, mas correm o risco de cair no clichê dos mocinhos contra bandidos. Não me entendam mal, mesmo com esse clichê é possível fazer temporadas maravilhosas de séries: posso citar The Following, por exemplo, que tem uma primeira temporada primorosa e usa e abusa desse clichê, sem deixar de ser uma das minhas preferidas. Mas a fórmula pode se desgastar – o que aconteceu com a citada The Following -, e a série cair na mesmice. Não me parece ser esse o destino de Mindhunter: os nossos mocinhos são retratados de forma mais humana e, por isso, com falhas, principalmente o principal, Holden. A postura dele me incomoda muitas vezes, e não necessariamente por conta dos métodos que ele acaba usando, mas pela quase soberba, pelos ares de “sabe-tudo”. Assim como a inatividade de Bill em alguns momentos, ou a excessiva seriedade de Wendy. E isso também é mérito da série, por colocar um retrato interessante também dos agentes e da psicóloga, não caindo na tentação de ser apenas um apanhado de entrevistas com os assassinos.

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Os dois agentes mostrando a foto da cena de um dos crimes durante uma das entrevistas

A crítica fez muitos elogios ao ator principal. Ainda que eu concorde que ele fez um bom trabalho no geral, em alguns momentos eu sentia que ele poderia ter feito mais… não sei explicar, eu só sentia que a personagem pedia mais do que ele pode entregar. No entanto, não posso negar que há momentos incríveis de interpretação de Jonathan Groff, sobretudo na interação com os assassinos. Mas vamos ver se eu mudo de ideia na segunda temporada.

Mindhunter é um exercício de narrativa. Há momentos de ação, entrevistas com descrições bem detalhadas, até resoluções de crimes, mas você deve ter em mente que essa série é sobre a criação de um método investigativo. Você vai ver, em alguns episódios, problemas com a burocracia do FBI, discussões sobre os métodos utilizados – os três discordam várias vezes sobre esse ponto. Então, não espere um filme de ação, pelo menos na maior parte do tempo. A série é um pouco mais lenta, densa, pesada, e consegue te prender mesmo assim. Eu assisti intercalando com uma comédia, porque tinha alguns momentos que eu simplesmente queria ver algo mais leve (em parte também porque estava assistindo essa e outra série também pesada, Suburra, da qual farei uma postagem em breve). No entanto, você vai querer maratonar – eu sei porque eu quase maratonei =P

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Eita cena tensa, essa

E aí? Já assistiram? Têm elogios, críticas? Me contem!

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